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08/03/2006
Comprando o primeiro barco II
Caro leitor gostaria de desculpar-me pela ausência. Desde outubro de 2005 estou morando em Ilhabela e por falta de tempo (por incrível que pareça) e computador/internet, não pude dar continuidade a minha coluna. Prometo, entretanto, recompensá-los.
Cuidados ao comprar um barco usado incluem uma boa checagem nas velas, mastreação/ferragens, motor/sistema de propulsão e casco/quilha (itens mais caros de uma embarcação) e itens também importantes como sistema elétrico e hidráulico, interior (madeiramento, cozinha, banheiro e cabines), instrumentos e salvatagem. Ao avaliar uma embarcação, também vale a pena contratar um mecânico de sua confiança para uma inspeção no motor e reversor e fazer ainda um “teste de vela”. É importante também procurar saber todo o histórico do barco.
Depois de feito o dever de casa, pode-se estimar quanto será necessário gastar para deixar a embarcação em perfeito estado de manutenção, para, com este laudo, negociar um preço mais justo.
Todo este cuidado talvez não fosse necessário se tivéssemos uma indústria náutica de vela em pleno funcionamento. Infelizmente, devido aos altos e baixos da nossa economia, nossos principais estaleiros de vela faliram. Ficamos por um longo período sem estaleiros que produzissem barcos em série, com ganho de escala e, conseqüentemente, menores preços. Salvo raras exceções (parabéns a eles), poucos barcos foram produzidos no Brasil. O que se construiu no Brasil, durante este período de “vacas magras”, foi basicamente feito “por encomenda”.
Outro problema que restringiu e muito o crescimento do mercado de barcos à vela no Brasil, foi os altos custos para importação (IPI, ICMS e Imposto de Importação) que, de uma forma bem clara, tornou proibitivo a importação de barcos à vela para o Brasil. Para piorar ainda mais esta situação, o Governo Lula, assim que tomou posse, criou os impostos PIS e Cofins, onerando ainda mais a importação e impossibilitando o que já era impossível. Outra medida implantada no governo Lula foi o aumento do IPI de 10 para 25% para barcos acima de 40 pés sob a alegação de que embarcações acima de 40 pés são consideradas “artigo de luxo”.
Um fato que ajudou e ao mesmo tempo incrementou o mercado, foi a liminar para o não pagamento do ICMS, entre os anos de 1999 e 2002. Várias embarcações importadas entraram no Brasil neste período, contribuindo para a melhoria do que era produzido aqui e melhorando também a percepção do mercado no quesito qualidade.
É claro que no nosso mercado atual existem também embarcações em perfeito estado de conservação e manutenção. Existem muitos barcos produzidos na época de “vacas gordas” – se é que podemos dizer assim – que já passaram por uma reforma completa, isso para não chamar de restauração. Só para dar um exemplo, em qualquer país de primeiro mundo, recomenda-se a troca completa do estaiamento de uma embarcação à vela, acima dos 12 anos de idade. Deveríamos nos preocupar mais com o item manutenção por ela estar diretamente ligada a nossa segurança. Barcos que já passaram por uma reforma, têm garantido seu valor de revenda e são bem mais fáceis de se comercializar. Pena que são poucos.
Infelizmente, existem muitos barcos no mercado brasileiro, que não foram cuidados como deviam, não por culpa somente dos seus proprietários, mas por culpa do nosso governo, que, além de dificultar, burocratizando a abertura de novos negócios, também impõe proibitivos impostos para importação de peças e equipamentos. Isso sem falar na regulamentação do setor que até hoje não reconhece o emprego de marinheiro, dificultando assim a inclusão e a profissionalização do setor.
Graças a uma economia e a uma inflação mais estáveis, estamos vivendo neste momento uma leve recuperação do mercado de barcos a vela no Brasil. Os estaleiros, amadores ou profissionais que conseguiram sobreviver nos últimos anos estão começando a colher os frutos de tanta dedicação e esforço.
Novos investimentos prometem incrementar o nosso setor. Um exemplo concreto é o lançamento do primeiro RO 400 produzido no Brasil. Havia muitos anos que não tínhamos um investimento desse porte na nossa indústria. A fábrica, instalada em Joinville, num condomínio industrial de alto padrão, já vendeu 12 unidades do RO 400 só para o mercado interno e pretende implantar uma linha completa de veleiros entre 26 e 40 pés, com o objetivo principal de atender o mercado externo pelo sistema de drawback, mas também atender o mercado interno, tão carente de novas embarcações.
Todos nós, amantes da vela, devemos dar um maior apoio ao setor, valorizando o que é produzido aqui.
Bons ventos.
André Homem de Mello
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Leia mais:
Comprando o primeiro barco I
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Para saber mais sobre as aventuras de André Homem de Mello, leia o livro Diário de Bordo, disponível no site do velejador: www.andrehm.com.br.
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