Foto: Marcio Dufranc





ANDRé HOMEM DE MELLO

André Homem de Mello 31/10/2008
Grug completa solitário (e sozinho) a Regata Santos–Rio 2008

Nesta coluna eu vou abrir espaço para o capitão Marcos Soares Pereira, comandante do Grug, único a completar a Regata Santos–Rio deste ano. Ele relata, com bom humor e muitos detalhes, tudo o que rolou a bordo do Grug – Grêmio Recreativo Unidos da Gastronomia.

58ª Santos–Rio - 2008
Uma realidade que se chama sonho
Uma peça em doze atos


PRÓLOGO – Um sonho adolescente
A primeira vista do veleiro, um Brasília 32’, ainda no estaleiro foi de paixão total. Desde o princípio várias alterações e adaptações de marinharia foram aplicadas ao barco para torná-lo navegável por apenas uma pessoa, 95% de dentro do cockpit. O mais difícil era o timão, roda de leme “Goyo”, que seria retirado do barco antigo para ser instalada no novo. Soluções economicamente viáveis em 1985 não existiam. Piloto automático, só mesmo uns elásticos amarrando o leme.

ATO 1 – “Um sonho que se sonha só é só um sonho, mas um sonho que se sonha junto é realidade.” (Raul Seixas)
André Homem de Mello, primeiro brasileiro a dar a volta ao mundo em solitário sem escalas, Gustavo Pacheco, o rato, navegador experiente de delivery e charters, participante da Mini Transat, Regata Solitário da França ao Brasil num 24 pés, organizam a Primeira Regata Santos–Rio em Solitário em 2007.

ATO 2 – Sonhos que viram pesadelos
Inscrevo o Grug – Grêmio Recreativo Unidos da Gastronomia na Regata. Dificuldades logísticas pessoais, o barco necessitando de urgentes manutenções, estrutura psicológica abatida e por fim a quebra do barco transforma o sonho de correr a Santos–Rio em solitário e conseguir chegar, em si uma façanha, num pesadelo, termina em DNF. Abandono a Regata ainda em Ilhabela. Dos onze (11) barcos que largaram somente três (3) chegam, o que até pode parecer conforto, mas não é.

ATO 3 – Discussões sobre o Regulamento da Regata em Solitário
André Homem de Mello lidera um fórum de discussões sobre a Classe Solitário. Muitas opiniões, emoções e pareceres depois, busca-se a atenção dos responsáveis pela organização da regata nos iate clubes do Rio e de Santos. Mais tempo para completar a regata, largada dos solitários ser antes das outras classes (o quanto antes)? Manter o posicionamento por GPS&Celular? Enfim, muitas questões.

ATO 4 – Preparação – Necessidades x Capital x Logística
O GRUG passa por uma reforma e ganha novo motor depois de 23 anos! Preparativos iniciam-se meses antes. Vários amigos e tripulantes se oferecem a participar de um fórum on-line discutindo-se os detalhes de uma Santos–Rio. Como todo o ano, muitos amigos se interessam em tirar uns dias de folga e participarem de alguma perna até Santos.

ATO 5 – A maturação do sonho
Torna-se realidade a 2ª Regata Santos–Rio em Solitário, número mínimo de inscritos aparecem, confirmada sua realização. Menos concorrida que a primeira, poucos barcos aparecem. Os relatos das dificuldades dessa regata que apesar de tradicionalíssima no Brasil, perdeu muito do seu charme de aventura, quase nenhuma mídia falando sobre, e o imediatismo “fast food” dos tempos modernos, não motivam a participação. A regata passou a ser muito mais uma regata de final de semana entre barcos caríssimos, com tripulações profissionais sem o charme de aventura e comandantes com personalidades marcantes, quase caricaturas. Sem uma boa conversa de varanda, boas bebidas e comidas, enfim, sem uma confraternização que empolgue ou chame a atenção que não seja dos profissionais da área ou fanáticos pela vela ou pelo Mar, vão dilapidando a Regata Santos–Rio. A Reunião de Comandantes nada mais que alguns avisos, sala vazia, nenhuma discussão, questionamento, pilhéria e risos, em resumo, deprimente.

ATO 6 – O sonho vai se tornando realidade
Os Organizadores ouvem alguns ecos das discussões sobre a Classe Solitário e dão aos participantes mais tempo para terminarem a regata. Largada na sexta-feira às 12h15, antes das outras classes apenas 15 minutos e a chegada passa de segunda-feira para terça-feira às 12h30. As possibilidades de mais barcos terminarem aumentam muito. Lendo isso parece até cristalização da loucura, noventa e seis (96) horas navegando sozinho em regata, ainda por cima em solitário! É... talvez seja mesmo “coisa de maluco”, mas tecnicamente correta e praticamente acertada. Barcos de cruzeiro, lentos, sem velas de tecidos exóticos, quilhas, mastros, e vários itens de fibra de carbono, levando água doce nos tanques, diesel, gelo, comida, etc, com tripulação restrita a um solitário (maluco?), em média navegam a 5 ou 6 nós em condições ideais, sem essas condições de Mar, vento, correntes ideais facilmente cruzam a 2 nós! Façamos as contas:

Percebe-se que a coisa é mesmo no limite. Antes eram 72 horas, boiando-se em calmarias ou com vento “na cara” ou “muito mar” contrário, a velocidade média pode ser ainda menor, abaixo dos 3,0 nós! 92 horas, há de se comemorar! Sempre lembrando que os participantes têm um quê de personagem, de caricatura...

ATO 7 – A Véspera da Regata
Iate Clube de Santos, uma mesa na Varanda, quatro Comandantes se sentam à mesa, dois médicos, um físico e um engenheiro. Experiências diferentes de vida e de mar, mas todos com um brilho diferente nos olhos. Já na confraternização organizada pelos responsáveis percebe-se um grupo, uma união, um sonho, tudo tão distante do entorno que um manto de invisibilidade se forma entre nós. Não fazemos mesmo parte do “resto”. Olhares de ironia que beiram desprezo nos cercam. As mazelas do mundo moderno se fazem parecer Quixotes modernos. Nada nos abala, de cara nos unimos e juramos num brinde estarmos juntos e nos apoiando. Cada um com sua estratégia, logística e personalidade, prontos para o que para todos era unânime: uma batalha com os elementos e consigo mesmo. Entre equipamentos eletrônicos, mecânicos, velas, comidas, bebidas, enfim, uma infinidade pessoal de itens, o sono era um fantasma comum. Como administrarmos a fadiga, era o coração da nossa empreitada.

ATO 8 – A Largada
Previsão de tempo muito pessimista, pouquíssimo vento, promessa de sofrimento. Velejar é sempre um prazer, mas para um solitário nada funciona direito sem um bom vento e condições de mar se não ideais ao menos não negativas. Como a organização acabou decidindo, largamos todos juntos no meio dos leões e dos milhares de dólares, uma agressão! C’est La vie, somos mesmo quase invisíveis e quase desprezíveis. Largamos.

ATO 9 – A Regata, o primeiro dia e a primeira noite
O primeiro e maior desafio de uma Santos–Rio, isso para todos os competidores, é vencer Ilhabela. Correntes contrárias, vento e ondas geralmente contrários são sempre os maiores obstáculos para se conseguir terminar a regata. Estatisticamente é por aí que se dão o maior número de abandonos. Conhecedor dessa característica da região, o Grug saiu logo de cara para fora, em direção ao oceano. Lento infelizmente, não saio o suficiente, e abandonar a perspectiva da “bóia” e dos outros barcos é geralmente suicídio, dou alguns bordos em direção a Ilhabela, mas sempre com a estratégia para navegar por fora de Alcatrazes, arquipélago reserva e zona de teste de tiro da Marinha. Como sempre o Brasil e suas dicotomias: reserva ambiental e zona de tiro! Sem vento, a flotilha não se dispersa tanto, o que trás a agradável visão de companhia e que não se está só, ou solitário. No Grug, a estratégia maior é manter o moral elevado. Para tanto me mantenho ocupado com afazeres manuais de navegação, anotações e cozinha, terapia ocupacional, ah, a cozinha! Desde garoto gosto da cozinha. Lugar de conversas largas, aromas diferentes, boas risadas. Afinal vivemos ainda como animais, mesmo nos dizendo senhores da natureza, sem boa comida e bebida não somos saudáveis e os maiores prazeres, ainda que nos vendam outros, são os mais básicos: somos aquilo que comemos e bebemos. Nossa saúde física e mental depende 100% disso. Como dizem: “Comer bem é a melhor vingança”.

Abro aqui um pequeno parêntese: cozinhar à bordo de um veleiro é para poucos. Um barco aderna, fica de lado, balança muito com as ondas e dentro da cabine a maioria das pessoas enjoa. Bem, comigo isso nunca foi problema, pois até agora ainda não enjoei. Sou um espécime preparado para uma cozinha de bordo. Depois dos preparativos como: cardápio, compras, pré-cozimentos, armazenagem, processos produtivos (para a confecção de cada refeição programada), chega o momento, servir-se de um bom prato e se der de uma boa bebida, que dependendo da situação pode ser água, cerveja ou vinho, quiçá algo mais “quente”, destilado ou um chá mesmo. Tudo com muito aroma, tempero e apresentação, não pode parecer ração! Depois de prazeres como esse, a saúde mental e física está garantida. Um prato tem que ser muito colorido, sortido, garantia de equilíbrio e de que não se ficará “enfezado”, literalmente, se é me entendem. De forma simplificada aí vai o Cardápio do Grug – 58ª Santos–Rio:

Sexta-feira: 24/10
Café da manhã (em terra)

  • Padaria

    Almoço
  • Sanduíches
  • Frutas
  • Sucos

    Jantar
  • Canja de Galinha
  • Cálice de vinho tinto
  • Chocolate

    Ceia
  • Chá com torradas, queijos e geléia

    Sábado: 25/10
    Café da manhã
  • Omelete misto com torradas
  • Frutas
  • Suco de fruta

    Almoço
  • “Mexidinho” (arroz + ovo mexido + refogado de peito de peru, cebola, alho poro e milho)
  • Cerveja
  • Frutas

    Jantar
  • Sanduíche
  • Doces
  • Cognac (uma dose!)

    Ceia
  • DORMI...

    Domingo: 26/10
    Café da manhã
  • Cappuccino
  • Ovo frito com queijo e peito de peru

    Almoço
  • Carne Seca com Abóbora (escondidinho, refogada com cebola e alho poro e requeijão)
  • Cerveja
  • Frutas

    Jantar e Ceia
  • Dormindo acordado, entre delírios na calmaria, fui só de chá e biscoitos

    Segunda-feira: 27/10
    Café da manhã
  • Suco de frutas
  • Ovos e torradas

    Almoço
  • Frango ao Curry
  • Arroz de passas
  • Vinho tinto (mais ou menos liberado...)

    Chegada às 23h57
  • Vinho, Queijos e Frutas, no cais Whisky...

    ATO 10 – O desenrolar da trama
    Quase boiando ao anoitecer, já perto de Alcatrazes. Depois de bem alimentado e de um bom charuto, me preparei para velejar nas menores brisas, sabedor que estava do momento crítico em que me encontrava. Totalmente focado em vencer Ilhabela praticamente não dormi. Uma das coisas com as quais nasci: acordo à noite! Velejando cada brisa cheguei até a ultrapassar por sotavento um dos veleiros da regata, o Fandango. Eles até se assustaram e se aborreceram com a ultrapassagem, dificultando ao máximo a mesma. Foi bom para acordar! Eles iniciaram a estratégia clássica de arribar para acelerar e orçar minha popa. Achei meio exagero, arribei e eles passaram orçando tudo, mas perdendo muita altura em relação à Ponta do Boi. Resolveram orçar para a África, de onde acabaram vindo na noite seguinte já de motor em direção a Angra. Pela manhã, depois do relatório das posições às 8h chamei meus companheiros Solitários. Fiquei feliz em saber que estavam bem e todos nós bem próximos uns dos outros, menos o Nicky Boy que jamais deu notícias, apesar de estar sempre no meu visual, bem aterrado. O Grug se mantinha algumas milhas mais para fora e à frente. O dia foi quente, sem vento e pouco mar de proa SSE. Realmente Ilhabela é um suplício, um paraíso e um inferno, mais um contraste dicotômico. Navegando à espera do SE ou E, sempre mantive a proa alta, fugindo de terra. Foi o pior dos dias no Grug. Nunca amarrei tanto uma retranca à borda, de BB à BE, sob o barulho muitas vezes ensurdecedor das velas batendo como um estampido ultrasônico de um chicote... dormir foi um pesadelo. Cheguei a sonhar acordado e não entender que estava no Mar! É, delirei... mas às 5h entrou uma brisa! SSE, o Grug voltou a velejar e o Piloto à timonear, aliás, oh coisa maravilhosa que é essa tecnologia! O terceiro repórter de posições trouxe uma notícia triste o Millennium Star abandonava a regata, tentei contato, mas não consegui... Saúde capitão! A noite foi mesmo arrasadora e as previsões pouco positivas. Cadê o Leste!?

    ATO 11 – E o vento chegou (paródia?)
    Com o Sol, chegou o vento. Sempre apertando, chegou a mais de 20 nós e o mar cresceu. Infelizmente, proa caindo para terra, Ponta da Juatinga e Ilha Grande, segundo e não menos complicado “quebra-molas” da regata. Os bordos para fora eram tão negativos e o barco sofria tanto com as ondas que não houve jeito, proa em terra e seja lá o que Deus quiser. Botei o barco para andar! De repente um nevoeiro de cortar com faca! Entrei em outra dimensão, um mundo branco. TUUUMM, apita um navio! Perto! BE à barlavento. TUUUMM, está ao lado, qual será sua proa? Nada vejo. Apitei um Piiiiiii com minha cornetinha, cai na gargalhada frente ao som: “vou chamar a atenção do navio pelo ridículo...” pensei na hora. TUUUMM, já vem pela proa se afastando, ufa! E o SE apertando e o mar crescendo. Com o vento mais forte e o Grug adernando consegui orçar melhor, minha proa subindo um pouco, talvez consiga vencer a Joatinga. O nevoeiro se vai, mas em terra ainda persiste, visibilidade comprometida. Enfim, terra! Boiou um maciço, Serra do Mar, “Monte do Papagaio” (confesso que chutei o nome, não me lembro)? Logo em seguida avistei Joatinga, Ilha Grande, Angra, casa do Grug, não, agora não é hora de pensar nisso, proa é Rio de Janeiro! Perto de terra consegui o celular e o VHF nem tanto. Forçando, forçando a orça, proa em Jorge Grego, praticamente livrando a Ilha Grande, mas entardecendo, promessa de adeus ao vento e mais calmaria, principalmente perto de terra. Fujo ou mantenho a proa? Bem, o vento diminuindo e o mar caindo, a proa para fora não estava tão negativa, se bem que também não era positiva, o VMG (velocity made good), do waypoint no bordo de terra dava uns 2 nós, com o Grug fazendo 4,5 nós, já o do mar dava um VMG de 0,7 à 1,0 nós, antes devagar do que para traz e para a terra! Promessa de mais uma noite daquelas! Fui premiado no final da tarde com dois peixes, uma anchova e uma cavalinha, morreram no corrico, vão para a panela!

    ATO 12 – Do Oceano para a linha de chegada
    Derivei à noite para fora, ao ritmo de uns 1,5 nós! Correnteza, balanço do mar e do panejar das velas, nem o piloto segurou a noite toda... descansar fui difícil. O som do chicotear da velas entrando na mente, destruindo o moral. “Estamos chegando. Tão perto e tão longe...” Mais uma vez a terapia ocupacional salvou, leitura, escrita e cozinha! O que fazer para o almoço? “Mudar o Cardápio, inventar uma receita, vejamos...” Já no oceano, mais de 20 milhas para fora, a água roxo nos envolveu. Acostumada à pesca oceânica de garoto, pensei: “assim que entrar o vento (ESE?) vou curricar...” Não é que pintou vento, mas de SW! Ondas ainda de SSE! Que coisa. Mas com o sol e o calor do dia, o SW foi embora, não antes de me proporcionar umas velejadas à 7,5 nós!!! Corrico n’água, imediatamente TARATATÁ o carretel do nylon pulou e a catraca cantou. Esse é grande. Luvas e cuidado, sem diminuir a velocidade do barco as chances de fuga do peixe aumentam muito! O mais leve surf e a linha afrouxa, lá se vai embora o almoço, e não é que foi isso mesmo. Tristeza à bordo nem pensar, 7 nós! Estamos voando e o melhor VMG 7 nós! Proa em casa!!! Ops, sem comemorar antes da hora. O vento se foi... olhando para o terra, Restinga da Marambaia amiga de tantos Carnavais, percebi vento em terra. Caramba, quadrante N! Putz, vamos para lá! Não é o vento veio até o Grug. Aterramos um pouco para aproveitar o vento. Pau do balão na genoa, Asa de Pombo! 10º para BB, 5º para BE, assim fomos até o Rio! Proa na Redonda. Não esquecer do último obstáculo e da pegadinha de “estamos chegando, vamos aterrando...”, últimas e fatídicas palavras. Aterrar perto da Pedra da Gávea é garantia de calmaria e perigo de terra! Proa para fora, Ilha Rasa piscando suas duas brancas e uma encarnada, proa nela! Sai então a última refeição, lá pela Barra da Tijuca, Frango ao Curry, aproveitei o frango da canja e reciclei. Infelizmente o leite de coco faltou, esqueci que havia utilizado outro dia... Liberei o vinho, com “certa” parcimônia, ainda falta muito. Mas um charuto vale! Comecei a pensar na chegada, ih, a maré!!? Sem vento e com maré saindo, não há como entrar! Previsão de maré, vazando às 23h!!! Putz, nas condições no laço! Nada pode alterar para pior!!! O NW pode ir para SW, só não pode ir embora.

    Stress máximo à bordo... Atenção. Baixar o pau do balão e orçar, cuidado com os quebra-molas, Arpoador, Copacabana e Cotunduva. Vamos que vamos. Avisei o ECHO 21 e a C.R., 5 milhas da chegada! Celular com a família, minha filha eufórica e ainda feliz com o Fluminense que vencera o Palmeiras por 3 a 0 e estava fora da zona de rebaixamento! “Pai, estamos em 14º! Nem se perdermos o próximo jogo voltamos para a zona de rebaixamento!” Só alegria, e eu, na pilha máxima, tão perto e tão longe... Vamos que vamos, mais uma dose de vinho. Entrando no canal da Cotunduva, e o vento acabou... a linha de maré logo ali na proa! Caramba, será que vou jogar ferro? Colei no Pão-de-açúcar fugindo da linha de maré... terei de cruzar para passar a linha de chegada, pela Barra Grande. Ui, isso vai doer... chegando na Barra Pequena, vou por aqui mesmo? Não, vamos lá, cruzemos a linha de maré... Não é que a coisa “esmerdou mesmo”, comecei a entrar de popa pela Barra Pequena, o que é pior, as “unhas da Laje” me pegando, estou sendo empurrado num rodamoinho fervilhante da linha de maré para cima da Laje! “C.R., C.R., Grug está sendo empurrado para as pedras!” chamo pelo rádio, que logo abandono para ficar nos panos e no leme. As escotas da Genoa nas mãos, cada lufada conta! Pelo rádio o ECHO 21 me chama insistentemente, agora não dá...

    Da C.R. vem uma lanchinha que fico do meu lado. A Genoa enche, vento vindo de dentro da Baía, o Grug pára, nem para frente, nem para as pedras... “Vamos, vamos!” Começo a me mover, de lado, para frente. As velas aquartelam... continuo navegando mesmo sem vento, a corrente fazendo infinitos rodamoinhos... começo a contornar o Forte da Laje! Incrível, uma mão invisível vai me jogar dentro da Barra Grande! Ih, olha o navio entrando na Barra! Putz, sai pra lá! Continuo a contornar a Laje, estou entrando, a lanchinha da C.R. avisa pelo rádio: “ECHO 21, ECHO 21, está tudo bem com o Grug. Estamos acompanhando de perto...” Entrei, agora falta cruzar a linha. Vento, SW, lindo! Vou orçando e vou cruzar na C.R. Piiiiii, cornetada da C.R. cruzei a linha! Uhuuuu! Cheguei. Parte de tripulação amiga do Grug, pelo celular, acompanha a chegada do Bar da Urca! Whisky no cais do ICRJ!

    Grug desligando instrumentos e toda e qualquer parcimônia. Família, vou dormir no cais do clube! Até amanhã pela manhã, pois por aqui vamos virar “abóbora” 23:57h...

    Grug – Grêmio Recreativo Unidos da Gastronomia
    Marcos Soares Pereira
    Capitão e Cozinheiro
    Rio de Janeiro, 29 de outubro de 2008

    Para saber mais sobre as aventuras de André Homem de Mello, leia o livro Diário de Bordo, disponível no site do velejador: www.andrehm.com.br.


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