Foto: Marcio Dufranc





ANDRé HOMEM DE MELLO

André Homem de Mello 29/11/2004
Quem é mais perigoso? Os piratas ou as armas a bordo?

Prisão de velejador australiano traz novamente o velho debate à tona

No dia 23 de novembro deparei com uma trágica notícia para o mundo da vela. A prisão do famoso velejador e aventureiro australiano Chris Packer em Bali na Indonésia. Chris foi preso por ter 5 armas, não militares, de pequeno calibre a bordo. A lembrança da morte do seu amigo pessoal Peter Blake, assassinado estupidamente aqui no Brasil, imediatamente me veio à memória. O incidente leva os navegadores oceânicos a um velho dilema: carregar armas a bordo e correr o risco de um fim como o de Packer ou se arriscar indefeso em águas infestadas de piratas?

Durante a minha primeira viagem oceânica dos EUA ao Brasil, depois de passar por diversos países temidos por velejadores, como México, Guatemala, Costa Rica e Panamá, cheguei à Colômbia me sentindo quase em casa, afinal, estava em território sul-americano. Após curtir bastante a cidade de Cartagena, parti com destino a Aruba. O trajeto seria difícil devido às condições adversas de vento e mar, mas o que eu nunca poderia imaginar, seria encontrar piratas pelo caminho.

Era dia 28 de julho de 1997, o vento e o mar não estavam favoráveis quando resolvi procurar um abrigo para passar a noite na esperança do tempo melhorar. Ao me aproximar de terra, vi um barco de pesca e logo pensei. Pescadores são homens do mar e portanto devem ser amigos. Fiz sinal aos pescadores e logo fui abordado pela embarcação. No momento do contato, dois sujeitos subiram a bordo me deixando um tanto assustado. Chegamos a uma ancoragem segura quase ao anoitecer.

O lugar me pareceu um tanto sinistro. Ali não havia um lindo resort cheio de turistas, mas sim um morro repleto de favelas. Após ancorar o barco, fui abordado novamente pela pequena embarcação. O chefe do grupo logo subiu a bordo para fazer companhia aos outros dois indivíduos. Puxei papo com o líder e fui logo dizendo, em espanhol, que era brasileiro. Ofereci um aperitivo e fui logo falando sobre futebol, samba e mulatas. Não consegui pregar o olho, dois seguranças armados me fizeram companhia durante toda a noite e até me confessaram que o plano era me matar e usar o barco para trafico de drogas.

Graças ao nosso esporte nacional e as nossas lindas mulheres, me safei dessa. Mas, e se eu tivesse uma arma a bordo? Será que reagiria? O simples fato de ter uma arma por perto, já nos dá uma sensação de segurança. Mas, será que adianta reagir? É claro que não. A melhor coisa a fazer nesses casos, é evitar as regiões perigosas e na pior das hipóteses, entregar a embarcação em troca da sua liberdade. É uma pena que as diferenças sociais hoje em dia sejam tão grandes a ponto de um indivíduo ter que roubar para sobreviver. E é uma pena, também, saber que o Brasil está incluído em diversos guias náuticos como um destino perigoso para a enorme comunidade de barcos de cruzeiro circulando pelo mundo.

Links relacionados:
Náutica NewsVelejador australiano é preso com armas a bordo

Para saber mais sobre as aventuras de André Homem de Mello, leia o livro Diário de Bordo, disponível no site do velejador: www.andrehm.com.br.


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